quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O Taxista João


Era um fim de tarde como outro qualquer em qualquer capital. João, o taxista, tentava não ceder a fúria de raiva que o consumia. No banco de trás, um casal olhava pela janela. Cada um, numa ponta no banco. Silêncio. Nenhum dos dois se olhava, somente o taxista, aflito, observava-os. Ansiava por uma brecha entre os carros afim de que chegasse logo. A corrida ficaria cara e nem isso o animava. Precisava chegar em casa. Há dias não via a mulher que chegara naquele dia, de uma longa viagem. Ela já havia ligado várias vezes a procura dele. Certamente pediria o divórcio, pensou. Ela era uma médica bem sucedida. Nem de longe, o biotipo de mulher do lar.
João olhou atentamente os dois jovens pelo retrovisor. Ligou o som do carro e colocou Cindy Lauper pra amenizar o clima. Olhou o sinal: fechado. Ao que parecia a música havia suavizado a discussão do casal, que começava a se entre-olhar discretamente. O taxista, saudoso, sorriu mais para si e em seu pensamento surgiram lembranças. Abaixando um pouco os olhos para a aliança contemplando-a sentiu-se confiante e decidido.
Logo que chegou ao local final daquela corrida, recebeu dos passageiros e os observou caminharem de mãos dadas. Deu a partida com o táxi e pensou se passaria numa floricultura ou outra loja qualquer. A volta da esposa poderia ser um alerta de perigo. Mas era, antes de mais nada, uma deixa para surpreendê-la. E assim o fez.

(...)